Mercado de seguros cresce com estabilidade no Brasil

Ainda que sufocado por previsões cada vez mais baixas de crescimento econômico do país, o mercado de seguros está otimista para crescer em 2019, apostando principalmente na utilização diversificada de tecnologia e em toda a transformação digital que o setor experimenta desde que os corretores deixaram de ser a única ponte entre as seguradoras e os clientes.

No início de abril, Marcio Coriolano, presidente da CNseg (Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização), afirmou que o setor projeta um crescimento entre 6,3% e 8,4% este ano. Coriolano disse que “passado o período de turbulência e incertezas políticas, e diante da perspectiva de aprovação de reformas estruturais e microeconômicas, o cenário é otimista”. Ele atribuiu às quedas do PGBL e do VGBL (-4,07% e -8,46%, respectivamente) a responsabilidade pela queda do mercado em 2018.
 
Agora a expectativa da CNseg é que o VGBL (Vida Gerador de Benefícios Livres) tenha alta de 4,6% e o PGBL (Plano Gerador de Benefícios Livres) cresça 2,6%. “Vai depender muito das reformas, mas, em termos de ambiente e de confiança, nossos dados do primeiro bimestre mostram que 2019 foi muito melhor que o primeiro bimestre de 2018, especialmente no PGBL e no VGBL”, comemora. As principais apostas da Confederação Nacional estão em ramos como seguro habitacional (entre 8,07% e 10,1%), garantia estendida (entre 7,4% e 15,7%) e seguro rural (entre 5,4% e 9,1%).
 
O desenvolvimento de tecnologias mudou a forma de os consumidores interagirem entre si e de como consomem serviços. Líder do setor,comparticipaçãodequase 25%, segundo os dados mais recentes compilados pelo Sindicato dos Empresários e Profissionais Autônomos da Corretagem e da Distribuição de Seguros do Estado de São Paulo (Sincor-SP), o Bradesco Seguros percebeu que a revolução no setor exigia dedicação exclusiva. Separou a área de inovação da de marketing e designou um diretor para cuidar exclusivamente do desenvolvimento de ferramentas que atendam às necessidades cada vez mais específicas do consumidor.
 
“Os mundos dos seguros são diferentes. A interface com o cliente é o grande ganho que a inovação vai trazer, comum a todos os tipos (de seguros)”, explicou Fabio Dragone, diretor da área, ao explicar que isso se traduz em facilidade de aquisição e uso. Da mesma forma que aconteceu em outros setores da economia, Dragone destacou que foi preciso repensar o relacionamento com o cliente, de modo a entregar soluções de forma simples, sem choque com os canais com os quais o consumidor está mais acostumado. “Temos quatro gerações de clientes aqui, de 20, 40, 60 e 80 anos. Precisamos atender esse cliente no canal que ele quiser. Nenhum será substituído”, adianta Dragone.
 
A revolução no setor respaldou o fortalecimento das insurtechs, startups que surgiram para agilizar a implementação das ferramentas demandadas pelos consumidores. “As insurtechs têm soluções prontas para algumas das dores que temos internamente e podem trazer soluções específicas para alguns processos”, destacou o executivo ao lembrar que o Bradesco tem um portfólio de inovação que incentiva startups sob sua curadoria. Além dessas parcerias, a empresa trabalha com o modelo de células ágeis: grupos de sete a 12 pessoas atuando juntas para trazer respostas mais rápidas, já que o processo é contínuo: desenhar, desenvolver e aplicar a tecnologia.
 
A SulAmérica Seguros também entendeu os desafios impostos pelos novos tempos. Há três anos criou a Garagem de Inovação com o objetivo de aprender a fazer projetos de experimentação que encantem o cliente no ambiente digital. “Os projetos mais inovadores nasceram desse modelo”, destaca o head em estratégia digital, inovação e tecnologia na SulAmérica, Cristiano Barbieri. A empresa concluiu que precisava aprender a fazer projetos menores e mais rápidos, trazendo mais agilidade em uma área que vive em transformação. Com projetos mais ágeis, os gastos também ficaram menores, permitindo que fossem diluídos em um leque maior de apostas. Como exemplo desse programa de inovação, ele cita um aplicativo na área de saúde que já tem 1 milhão de downloads e também o novo processo de reembolso. “Antes o cliente tinha que mandar um papel, que seria digitalizado e pago. Isso foi trocado por uma foto no aplicativo, que usa inteligência artificial e que torna o pagamento bem mais rápido.”
 
A estimativa de crescimento do setor em 2019 é de 8,4%
 
O objetivo da empresa agora é ter a melhor experiência digital integrando a cadeia cliente-corretor-prestador de serviços. “O comportamento está mudando muito rápido. Temos que virar uma máquina de experimentação para encantar o cliente a todo momento.” Mesmo considerando que a interação humana é relevante, a SulAmérica admite que a inteligência artificial pode reduzir consideravelmente a interface entre operador e cliente. Atualmente, cerca de 30% das demandas por chat não são resolvidas totalmente na interação com a inteligência artificial.
 
“Acreditamos que, em cinco anos, vamos substituir todo o atendimento pela máquina”, prevê o executivo. Com 7 milhões de clientes, uma rede de 30 mil corretores independentes e 5.300 funcionários, a SulAmérica leva a inovação para todas as suas áreas de negócios, embora saúde e autos, onde é mais forte, tenham prioridade.
 

A primeira apólice

 
Plataforma de vendas de seguros online da Caixa Seguradora, a Youse cuida da vida e dos bens de mais de 10 milhões de pessoas no Brasil. Responsáveis pelas áreas de inovação e finanças da empresa, dois porta-vozes, Alvaro Anton (diretor de tecnologia) e José Filippini (diretor financeiro), confirmaram a tendência de crescimento do setor.
 
“Desde o surgimento da Youse, em 2015, seu crescimento não ficou atrelado ao ciclo econômico brasileiro. Trilhamos um caminho independente, com taxas de crescimento de dois dígitos ao ano, desde 2016. Esse crescimento exponencial está baseado em um perfil de cliente que, em sua grande maioria, não tinha seguro: 70% de nossos segurados compraram sua primeira apólice na Youse”, diz Filippini. Na comparação 2018-2017, o faturamento aumentou 145%, crescimento que a empresa atribui à vantagem competitiva de ser 100% online. “Somos uma das poucas insurtechs full stack do mundo. Isso quer dizer que a Youse consegue inovar em qualquer parte da cadeia de valor (vistoria, precificação, gestão de sinistros…)”, afirma Anton. “Nosso clientes conseguem comprar uma apólice em cinco minutos, customizar 100% das coberturas e assistências, fazer uma vistoria do veículo, acionar e acompanhar nossos serviços – tudo online”. A Youse trabalha em três ramos: auto, vida e residencial.
 

 
Para que o alcance de bons resultados seja efetivo, Anton e Filippini concordam que o maior desafio da indústria é se reinventar. “Muitas indústrias atravessaram disrupções com a adoção de novas tecnologias ou novos modelos de negócios. Não vai demorar para isso acontecer no mercado de seguros – um indicador disso é o dinheiro investido em insurtechs no mundo só em 2018: US$ 4 bilhões.”
 
O avanço do setor de seguros em canais digitais acompanha uma tendência internacional, analisa a norte-americana Limore Zilberman, consultora internacional e líder da área global de seguros da Russell Reynolds Associates. “O mercado de seguros moderno tem que marcar presença onde o consumidor está – e isso significa ser multiplataforma, com várias interfaces. Esse movimento está acontecendo com mais vigor nos Estados Unidos”, analisa. “Mas os consumidores do Brasil também querem essas mudanças”, compara Limore. Para ela, o Brasil ainda está patinando no desenvolvimento de lideranças com o perfil que o setor exige, o que pode ser uma oportunidade para profissionais de outras indústrias.
 
Atento às metamorfoses do mercado, o engenheiro Marcelo Blay fundou a Minuto Seguros em dezembro de 2012 – hoje, com 450 funcionários, a empresa tem 13 seguradoras no portfólio, cotações online e atendimento humano para seguros de automóvel, casa, viagem, vida, acidentes pessoais e empresas. Em 2012, o faturamento foi de R$ 9,5 milhões; no ano passado, R$ 210 milhões. “Pode parecer presunção da minha parte, mas já imaginava que chegaríamos a esse ponto. Foi tudo muito planejado, com orçamentos bem feitos e executivos experientes trabalhando com um objetivo comum. Claro que não contávamos com a pior recessão da história republicana do Brasil, mas nada do que conquistamos foi sorte ou surpresa – não perdemos o foco em momento algum. Pegamos a corretora com 800 clientes, e hoje temos 100
mil carros segurados”, contabiliza Blay, CEO da Minuto Seguros, com 25 anos de experiência no setor.
 
“Sabemos que podemos crescer muito ainda, estamos lidando com um mercado pouco penetrado. Entre os veículos, da frota de 48 milhões de carros, só um terço é segurado; entre as residências, esse número é ainda mais baixo: 15%. A transformação digital está levando o seguro para camadas da população que não tinham contato com corretores”, continua Blay.
 
Fonte: Forbes Brasil 2019

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